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Entrevista: "O lixo que gera vida" - Valmir Fachini, diretor executivo do Instituto Ambiental do Rio de Janeiro (OIA).
Valmir Fachini é diretor executivo da ONG O Instituto Ambiental (OIA), do Rio de Janeiro. Está na área de Meio Ambiente desde a década de 90, por ocasião da implantação dos projetos “Reconstrução Rio” de atendimento as vítimas das catástrofes ocorridas em Petrópolis (em fevereiro de 1988, a cidade fluminense ficou semidestruída pelos desabamentos ocorridos nos morros depois de chuvas intensas). Um de seus trabalhos foi o gerenciamento na implantação do Biossistema Integrado (BSI) na comunidade do Sertão do Carangola (Petrópolis), onde biodigestores estão sendo usados para tratar lixos e dejetos humanos. O BSI consiste em uma construção que transforma resíduos domésticos em biogás, adubo e ração animal. A iniciativa conta com a parceria da Fundação Banco do Brasil, da Embrapa e de instituições locais.
Em entrevista à revista Conexão Clima, Fachini explica o funcionamento dos biodigestores e enfatiza a importância para o meio ambiente do investimento nesse mecanismo.

Conexão Clima – Qual é o princípio do uso dos biodigestores?
Valmir Fachini –
Os biodigestores são utilizados preferencialmente para degradar matéria orgânica em ambientes anaeróbios (aqueles onde os organismos presentes não requerem ar ou oxigênio livre para manter a vida), seja por fechamento hermético do equipamento, seja por concentração orgânica, como ocorre em lagoas anaeróbicas. Neles, as bactérias metanogênicas (que são anaeróbias e produtoras de metano) se propagam e convertem a matéria orgânica em biogás, uma fonte renovável de energia. O biogás produzido no fundo dos reatores atravessa a coluna d’água e se concentra na cúpula (a parte superior da câmara), de onde é retirado por dutos de biogás. A água é utilizada como biofertilizante tanto para recuperar solos degradados como para fertilizar lagos de piscicultura e criação de aves aquáticas.

CC – Quais são as vantagens de sua utilização?
VF –
Os biodigestores servem para tratar efluentes com elevadas cargas orgânicas e assim contribuir para a limpeza do ambiente. Também produzem biofertilizantes que servem para recuperar solos degradados tanto na forma líquida quanto na concentração do biossólido disponível no fundo dos reatores. O biogás é uma fonte de energia renovável e serve para gerar eletricidade ou para ser usado diretamente em fogões, iluminação, aquecimento de aviários e chuveiros. Também protege o ambiente, promovendo equilíbrio ecológico. Quatro áreas são as mais beneficiadas: saneamento/saúde, energia, fertilização e ambiente.

CC – Em que caso e lugares é indicado a construção de biodigestores?
VF –
Os biodigestores podem ser usados desde para uma família até para uma cidade inteira. Em geral, as novas Estações de Tratamentos de Esgotos (ETEs) são constituídas de reatores para processar o lodo final resultante dos processos anteriores. Já nos biodigestores, o lodo pode ser utilizado para, por exemplo, recuperar solos degradados. Os proprietários agrícolas são usuários potenciais dos biodigestores por isso e também pela enorme carga orgânica que manejam. Os hotéis, as pousadas e os resorts também são usuários potenciais porque, além de resolverem seus problemas de saneamento, os biodigestores geram um atrativo a mais em seus negócios. Sabemos, por informação direta de proprietários de pousadas, que os clientes, na hora de fazer suas reservas, solicitam pousadas que tenham este plus ambiental.

CC – Quais são os principais benefícios para o meio ambiente com o uso dos biodigestores?
VF –
O gás metano, quando lançado livre na atmosfera, é 21 vezes mais maléfico que o gás carbônico (CO2). Por ser mais leve que o ar, vai direto para a camada de ozônio, estando classificado entre os seis gases de efeito estufa que devem ser controlados. A melhor forma de controlar esse gás é utilizá-lo como fonte de energia. Toda matéria orgânica em fermentação produz gás metano, que é lançado ao ar livre, todos os dias. Por isso, é importante armazená-lo e utilizá-lo de forma segura. Os nutrientes recuperados pelos biodigestores ajudam a recuperar os solos degradados, a produzir mais biomassa para construções sustentáveis e para a produção local dos alimentos, promovendo, ao mesmo tempo, saneamento.

CC – Onde aconteceram os primeiros projetos de construção de biodigestores? É possível fazer uma avaliação, hoje, dos benefícios e resultados dessa iniciativa nesses locais? VF – Pelo OIA, começaram no estado do Rio de Janeiro na Região Serrana de Petrópolis. Hoje, eles estão espalhados pelas cinco regiões do país, na América Central e na Europa. Como consequências já existem municípios, como Petrópolis, que o tornaram política pública. Na Nicarágua e na República Dominicana o projeto foi assimilado pelos empresários agrícolas e por comunidades. Na Nicarágua, o programa Fome Zero do Governo Daniel Ortega incluiu 75.000 biodigestores no programa de governo. No Haiti, neste momento, estamos ampliando a proposta para dar suporte e tratamento aos excretos produzidos por milhares de latrinas instaladas nos vários acampamentos dos desabrigados do terremoto de 12 de janeiro de 2010.
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