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A melhor maneira de evitar mortes por catástrofes ambientais são os sistemas de alertas de prevenção
Dr. Carlos Nobre
Por Dr. Carlos Nobre, chefe do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CST/ Inpe).


Em entrevista para a Conexão Clima, o Dr. Carlos Nobre, chefe do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CST/Inpe), um dos cientistas brasileiros que integram o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e atual presidente do Comitê Científico do International Geosphere-Biosphere Programme (IGBP), fala sobre as atuais catástrofes ambientais que acontecem no Brasil, principalmente em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.

Na ocasião, Nobre, que é engenheiro eletrônico formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e doutor em Meteorologia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), apresentou como os governos locais podem se fortalecer e trabalhar para tentar diminuir esses desastres. Segundo ele, o aquecimento global não é o culpado por tudo isso, mas é a melhor explicação para os acontecimentos, já que afeta o clima diretamente.

CC – Existe alguma forma de os governos locais se fortalecerem para mitigar as consequências do aquecimento global?
CN –
Sim, e há duas escalas de tempo para isso. A primeira é desenvolver sistemas de alerta e de prevenção. Isso é uma responsabilidade dos governos e lentamente está acontecendo no Brasil. Precisamos ter um grande esforço, uma “revolução” nessa área de prevenção. E é uma situação de urgência. Não podemos melhorar lentamente, senão as pessoas vão continuar a morrer e, cada vez mais, em grande escala. Precisamos modernizar rapidamente a área de prevenção, desenvolver sistemas de alerta para as áreas de risco. A ciência já avançou bastante; nós poderíamos ter esses sistemas. Agora é necessário que eles sejam implementados. Eles podem ajudar tanto em deslizamentos de encostas e inundações como em secas extremas, ventanias e outros desastres naturais. É um mecanismo caro, já que é preciso fazer um sistema para cada área de risco. Porém, desenvolvendo o processo, em cinco anos poderíamos avançar muito.

A segunda escala é um pouco mais complexa, pois envolve aspectos culturais: desenvolver uma população que esteja “antenada” na questão do risco. Muitos bairros tornam-se, infelizmente, um exemplo bizarro da pobreza brasileira. São pessoas que moram em áreas de risco e constroem pequenas edificações, umas em cima das outras. Esse é um sistema absurdo de lutar contra o risco, pois elas não querem perder seus bens. A população tem que estar preparada para o risco, para percebê-lo, e, no entanto, estar alinhada ao sistema de alerta. As pessoas não vão olhar para céu e adivinhar a tempestade que está por vir. Tem que haver uma ciência por trás. Há muitas maneiras de fazer uma combinação de sistemas de prevenção com uma atenção especial da população que vive em área de risco, mas diminuir a exposição das pessoas a essas áreas é consequência de políticas de longo prazo, portanto um movimento lento a ser pensando em escalas de décadas. Então, o progresso brasileiro para evoluir na questão da prevenção dos desastres do aquecimento global pode ser visto nessas duas escalas de tempo.

CC – A que ponto essa evolução já acontece no Brasil?
CN –
Em alguns lugares já existem bons sistemas de alertas. Por exemplo, o Vale do Itajaí, em Santa Caratina onde ocorreram chuvas torrenciais que causaram deslizamentos, enxurradas e inundações em 2008, possui um dos melhores sistemas de desastres naturais do Brasil. Porém esse sistema era apenas para inundações da planície e do rio. Eles tinham todo um sistema que previa com horas de antecedência se ia haver uma onda de cheia que pudesse causar uma grande inundação da planície, o que alertaria as pessoas a saírem de casa. Então, é possível desenvolver esses sistemas, mas temos que agilizar o processo para o quanto antes.

CC – Por que você acredita que esses sistemas ainda não foram implantados em grande escala no Brasil?
CN –
Acho que primeiro é preciso ter a percepção dos tomadores de decisão, dos políticos, já que isso tem que ser uma ação do Estado, tem que ser um sistema público. Não há lucro em salvar vidas humanas de desastres naturais e não tem jeito de desenvolver um sistema privado. Em nenhum lugar do mundo existe um sistema privado de desastres naturais. Um desastre natural pode ter uma consequência econômica gigantesca, como o Katrina, que só o Estado pode bancar. Por essa razão, quando acontece em regiões pobres não há como as pessoas se recomporem. Então, o primeiro passo é convencer os tomadores de decisão da importância disso.

No Brasil, acredito que isso está ficando cada vez mais visível. Os tomadores de decisão estão começando a perceber realmente a necessidade de investimentos nessa área para desenvolver sistemas de prevenção e capacitar as pessoas a responder aos alertas. Estou otimista quanto ao entendimento das autoridades responsáveis pelas verbas públicas em relação à necessidade de investir no desenvolvimento de sistemas preventivos brasileiros.

CC – Tudo isso envolve trabalhos de adaptação às mudanças climáticas?
CN –
A melhor maneira de elaborar trabalhos de adaptação aos extremos do aquecimento global é ter um sistema hoje que faça as pessoas enfrentarem isso. Tendo sistemas para os extremos de hoje teremos muito mais facilidade para enfrentar os extremos do futuro. Se não tivermos, como ainda não temos uma forma aperfeiçoada para o Brasil como um todo, nós estaremos bastante desamparados para enfrentar os extremos climáticos que podem se tornar mais extremos com um planeta mais quente.
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