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Por *Ronaldo Vasconcellos

O célebre título da peça do dramaturgo William Shakespeare serve como luva para definir as marchas e contramarchas da Convenção Mundial sobre Mudanças Climáticas, realizada em Copenhague. Deixaram leituras diversas e duas certezas: o mundo, muito em breve, irá cobrar pelos erros e omissões cometidas, mas poderá comemorar os avanços alcançados ali.

Todavia, antes desta análise de custo/benefício, prefiro começar por uma leitura do ponto de vista físico da Conferência. Este foi o terceiro grande evento do gênero que participo. Estive na COP 10 (Argentina), na COP 11 (Canadá) e agora da COP 15, na Dinamarca. Tinha a expectativa de que me aguardava uma organização de 1º mundo.Infelizmente, voltando a uma citação de Shakespeare, agora em “Hamlet” fiquei com a impressão de que “há algo de pobre no Reino da Dinamarca”.

Afinal, o país e a Organização das Nações Unidas (ONU), convidaram 40 mil pessoas do mundo inteiro para o evento, mas parece que dimensionaram muito mal as coisas. O que se viu, desde o desconforto de se passar quase 7 horas numa fila dentro e fora do Bella Center (sede principal), numa temperatura abaixo de zero, para entregar a carta convite e receber o crachá, foi um verdadeiro caos. Não ficou por aí. Além da seqüência de crachás exigidos a cada dia, houve até uma “orientação” para que representantes do Terceiro Setor “evitassem” participar das discussões no dia seguinte às fortes manifestações da terça-feira. Traduzindo: um verdadeiro colapso logístico provocado pela incapacidade dos dinamarqueses ou da ONU – ou de ambos – em dimensionar o evento. Não sem motivos, da metade para o fim da Conferência, os técnicos e especialistas foram sumindo, preferindo se reunir em seus hotéis e outros lugares para discutir suas posições.

O somatório destes erros nos levou a uma opção mais feliz: partimos alguns para o acompanhamento dos eventos paralelos. Aliás, foi assim que pudemos acompanhar temas e projetos ecológicos mais objetivos e descobrir, por exemplo, que mesmo com todas as dificuldades climáticas, 37% dos deslocamentos diários da população de Copenhague são feitos de bicicleta. Em BH não chegamos a 1%.

Felizmente, aqueles que realmente se preocupam com a defesa do meio ambiente e da sobrevivência do planeta já chegaram a Copenhague conscientizados, há muito tempo, de que não dá para ficar sentado esperando “ações globais” mais efetivas. Alguns, inclusive, já pregam abertamente uma mudança radical na estrutura da Organização das Nações Unidas (ONU) que, para muitos, já caducou, como fórum de decisões mundiais. Já tem consciência de que a “ação local” é imprescindível, posto que seus reflexos não se limitam à sua abrangência geográfica, mas afetam todo o planeta. Daí a importância em ter participado da 15ª Conferência das Partes – Convenção Quadro das Nações Unidas Para Mudança do Clima, Promovidos pelo ICLEI (Governos Locais pela Sustentabilidade) e reunindo delegações de todo o mundo, os eventos paralelos foram de vital importância para as discussões do futuro da humanidade.

Por isto mesmo, não acredito que o resultado final tenha sido o fiasco que tem sido pintado pela maioria dos analistas. É certo que não houve um protocolo final assinado por todos os países. Na verdade, isto seria uma utopia, mesmo no Reino da Dinamarca onde, historicamente, nascem os grandes contos de fada. A unanimidade é burra, disse Nelson Rodrigues. Difícilmente teríamos um documento assinado por todos os 193 países. Até porque, bastaria o veto de apenas um deles para que ele não tivesse a força de “Tratado”. Todavia, apenas o fato de reunir todos eles no urgente exercício de repensar a nossa relação com o clima e o futuro da humanidade, já foi um grande salto. Mesmo sem o ansiado acordo final com chancela da ONU, documentos paralelos, como o que levou o a assinatura dos Estados Unidos, Brasil, China, Índia e Rússia, foram essenciais. Tem o calibre de pesos pesados. Os países se comprometem a realizar investimentos e trabalharem juntos para limitar o aumento da temperatura global em 2 graus centígrados até o fim do século 21.

O mais importante foi a atenção planetária obtida pela Conferência com a participação, pela primeira vez, de todas as grandes lideranças mundiais. Incluindo aí, felizmente, o presidente Lula cujo duro pronunciamento final mereceu destaque na mídia mundial. Não sem motivo, o presidente da França, Nicolai Sarkozy, foi mais longe e propôs a convocação de um novo encontro ainda para o primeiro semestre de 2010.

Resumindo: mesmo com a diferença de metas e números, coisas importantes vieram à tona. Ficou claro que todos estão conscientes e preocupados com a questão ambiental. Tenho certeza de que os caminhos para superar as divergências foram traçados. Daqui para frente, não faltarão recursos financeiros e esforços para a defesa do meio ambiente, controle das mudanças climáticas e do aquecimento global. O desafio, como bem lembrou no comunicado final da Conferência o seu secretário-executivo, Yvo de Bôer, “será transformar aquilo com que concordamos politicamente em algo real”.

*Ronaldo Vasconcellos é Secretário Municipal do Meio Ambiente de Belo Horizonte.

Fonte : Jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte, MG
Publicado em 06-01-2010 - 1º caderno – Página:05

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